EU, ROBÔ – O QUE É HUMANIDADE?

As Três Leis da Robótica:

1 – Um robô não pode ferir um humano ou, por omissão, permitir que um humano seja ferido;

2 – Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei;

3 – Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis;

Eu tinha quatorze anos quando fui apresentado a este livro. Era para um trabalho da escola, algo sobre um pequeno seminário envolvendo perguntas simples, como o tema abordado na história, quando foi publicada, um pouco sobre o autor e etc.

Lá estava eu, tendo de me conformar com o fato de “todos os livros bons” – isto é, todos aqueles com monstros mágicos e personagens jovens – já terem sido escolhidos por alunos mais sortudos. Ao menos, era isto que eu pensava.

Um dos meus colegas, igualmente azarado, decidiu que a melhor ideia era pegar um livro curto e rápido, assim, por consequência, a leitura também seria curta e rápida, bem como o tempo que o mesmo teria de ficar na frente da gigantesca turma, gaguejando sobre uma história da qual ninguém estava muito interessado. E foi o que ele fez. E seria o que eu teria feito se, ali, em meio às capas de couro dos romances de época e contos de terror bicentenários, em uma tira cinzenta e fina, com as fontes mais básicas que um livro poderia ter, não estivesse escrito as mágicas palavras “Isaac Asimov – Eu, Robô”.

Como um dos milhões que assistiram à adaptação cinematográfica com Will Smith no papel principal – e como um dos milhares que não gostaram –, a primeira coisa que pensei logo foi, acredito eu, o mesmo pensamento de tantos outros: “Tinha um livro?”.

E sim, havia. Um espetacular, inteligente, crítico e revolucionário livro de ficção científica futurista, lançado inacreditavelmente há mais de sessenta anos. Eu não me lembro de como foi meu seminário, nem qual foi a nota que ganhei por ele, mas eu sempre lembrarei de cada um dos nove contos presentes nas 302 páginas daquele exemplar.

Eu, Robô foi o primeiro livro, digamos, sério, que li. Se, hoje, consigo apreciar as obras de Chuck Palahiuk, George R. R. Martin ou mesmo Stephen King, tudo se deve à narrativa “menos é mais” de Isaac Asimov.

Nascido em 1920, na cidade de Petrovichi, localizada na então Rússia Soviética, Asimov ficou conhecido pelos seus contos sempre abordando a evolução da tecnologia e a natureza humana. Eu, Robô nasceu de uma coletânea dessas pequenas histórias, todas já publicadas em revistas da época. Quando o autor apresentou à sua editora o trabalho completo, intitulado como “Mente e Ferro”, a mesma sugeriu que “Eu, Robô” soava muito melhor. Asimov discordou desta afirmação, uma vez que já havia um conto nomeado Eu, Robô, escrito por Otto Binder, este que foi uma das principais inspirações para o primeiro conto do livro, “Robbie”, este que, particularmente, é o meu preferido dos nove.

Na introdução, somos apresentado à Dra. Susan Calvin, uma psicóloga roboticista e alta funcionária da fábrica e desenvolvedora de robôs U.S. Robots and Mechanical Men, Inc., sendo entrevistada por um jornalista sem nome que a pergunta sobre a sua perspectiva em relação ao robôs. Calvin, então, conta ao entrevistador nove histórias sobre casos peculiares envolvendo As Três Leis da Robótica, algumas delas questionando a praticidade das mesmas e, em outras, explicando o porquê de elas serem tão necessárias.

Calvin começa “há mais de sessenta anos atrás”, em 1996, na época em que os robôs eram apenas operários ou serviçais domésticos. Na cronologia, o ano em que o primeiro robô falante foi criado. Conforme os contos vão passando, acompanhamos a evolução dessas máquinas, bem como eventos importantes envolvendo-os, como a coleta de recursos no espaço e o primeiro cérebro positrônico cético em relação ao universo, não acreditando que a Terra ou mesmo as estrelas existam – sendo, assim, uma brincadeira com o ateísmo do próprio Asimov, como uma forma de desconstruir o conceito do que é ceticismo.

Eu, Robô, logo de cara, nos mostra que, apesar de incrivelmente simples, tem uma das mensagens mais complexas que já vi em um livro: o que é humanidade?

Pense consigo mesmo por um momento. Imagine que você assiste ao jornal que está a noticiar, por exemplo, a prisão de um homem que assassinou a sangue frio a própria esposa. É comum alguém comentar, ou você mesmo pensar, que “isso não é humano”. Todos conhecemos essa frase. Por outro lado, quantas vezes já ouvimos pessoas dizendo o quanto os humanos são horríveis? Que é da natureza humana ser mau? Que, se os humanos fossem extintos, o mundo seria um lugar melhor?

Mas deixe estes aspectos sentimentais de lado e pense friamente: o que te faz humano?

Seria o poder do pensamento? Nossa mentalidade infinita? Afinal, “Penso, logo existo”. Mas, ei, o Google também pode pensar. Sim, através se algoritmos ainda muito primitivos, tudo com uma base matemática, mas e se pensamentos forem apenas um algoritmo complexo demais para ser colocado em um código fonte? E se, mesmo que não feitos de metal fundido e fios elétricos, sejamos os mais avançados robôs?

Seria, nesse caso, nossos sentimentos? Afinal de contas, máquinas não amam, não odeiam, não sentem atração por outros seres. Talvez alguns homens se apaixonem pela Siri de seus iPhones, mas Siri não poderia amá-los de volta. Ou poderia? Afinal de contas, o amor é só uma grande quantidade de endorfina sendo enviado para o nosso cérebro, assim causando-nos prazer, então, o que impede a programação de um equivalente robótico para os sentimentos? E se for possível programar o amor? Como Spike Jonze já nos mostrou em seu filme Her, os robôs também amam. E choram. E odeiam. E, obviamente, também pensam.

Então, você aí, sentado em frente à tela de seu computador, ou semicerrando os olhos para ler na tela retangular de seu smartphone, diga-me: o que é ser humano?

E quando você estiver enlouquecendo, tentando achar a resposta, se pergunte: seriam os humanos os melhores robôs de sua época?

Por Gabriel Barros.

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