VIDAS SECAS: FICÇÃO OU REALIDADE?

Certo dia, ao realizar um trabalho da universidade, cumpri a árdua missão de ler um dos maiores exemplares da literatura brasileira: Vidas Secas. E, se me refiro a essa missão como sendo “árdua”, justifico a escolha do vocábulo baseando-me pura e tão somente na atmosfera que compõe sua história, ambientada no agreste brasileiro. Esse, que certamente já é um dos meus livros favoritos, conta a trajetória de uma família de retirantes nordestinos tangidos pela fome e pela seca, entre diversas outras dificuldades, que sai em busca de uma vida digna, sem nunca perder a esperança de dias melhores. E, se essa sinopse, apesar de se referir a uma obra de ficção, lançada em 1938, te lembrou uma realidade bem factível, é justamente porque Vidas Secas dialoga com a realidade de muitos brasileiros e brasileiras, que, até hoje, enfrentam as mazelas de uma terra seca e sem muitas perspectivas, em que a maior das alegrias se encontra num prenúncio de chuva.

O livro ainda traz outros temas que circundam a realidade brasileira, sob pontos de vista também políticos. Destaque para o personagem denominado “Soldado Amarelo”, um oficial, responsável pela segurança da cidade, com uma postura bastante autoritária e abusiva, numa clara referência à repressão da ditadura varguista, vigente na época em que o livro foi lançado.

Vidas secas é um livro que nos emociona a todo o momento, por seu caráter pungente, visceral, melancólico e a maneira brutal como aborda as emoções e as relações humanas, a partir da perspectiva de um povo que, em realidade, já nos toca, sob diversos olhares.

A maneira como a família é retratada, comunicando-se quase que sem diálogos, de maneira seca e direta. Sem características pessoais, incluindo dois dos personagens principais que sequer têm nome, evidencia um processo de zoomorfização, onde os personagens humanos são facilmente comparados a animais. Uma metáfora mais do que relevante, visto que os próprios personagens são tratados dessa maneira, a todo momento, sendo alvos de todo tipo de exploração. O único personagem que demonstra um lado sentimental é justamente a cadela da família, chamada Baleia. É ela que, através de um processo chamado antropomorfização, ganha características humanas, fazendo com que o leitor crie, por ela, uma grande empatia.

Um sábio, cuja origem permanece desconhecida, decretou, certa vez: – “És dono da palavra que calas e escravo da que pronuncias”. As palavras podem mesmo ser perigosas. Aliás, melhor dizendo, assim como Fabiano, o provedor da família, já havia constatado, palavras SÃO perigosas. Neste livro, contudo, o maior perigo é exatamente o contrário: a falta de comunicação, de verbalização. O “não dizer”, causador de inúmeros momentos de angústia ao longo do romance. E, se nessa história tudo é árido e seco, o mesmo não se pode depreender a respeito dos olhos de seus leitores, certamente há muito embebidos pelas lágrimas que começam a surgir desde o primeiro capítulo dessa incrível e emocionante história, fundamental para a trajetória acadêmica de qualquer estudante brasileiro. Eu ainda acrescentaria: pra vida de qualquer brasileiro.

Por Roger Balboa

Que outro livro você considera atemporal? Deixe sua opinião nos comentários.

Livreria – multiplicando sua leitura

Acompanhe nossas mídias sociais:

Facebook

Instagram

Youtube

LIVRERIA, multiplicando sua leitura.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s