CLUBE DA LUTA – VOCÊ NÃO É ESPECIAL

Regras do Clube da Luta:

1 – Você não fala sobre o Clube da Luta;

2 – Você NÃO fala sobre o Clube da Luta;

3 – Quando alguém diz “pare” ou fica desacordado, mesmo que esteja fingindo, a luta acaba;

4 – Apenas duas pessoas por luta;

5 – Uma luta por vez;

6 – Sem camisa e sem sapatos;

7 – As lutas duram o quanto tiverem que durar;

8 – Se essa for a sua primeira noite no Clube da Luta, você tem que lutar;

 

 

No início dos anos 90, um escritor de nome complicado tentou vender uma nova, peculiar e original ideia à sua futura editora. O livro era intitulado “Manifesto“, e trazia uma narração em primeira pessoa de uma ex-modelo com rosto deformado, relatando suas aventuras nada glamourosas no ramo do tráfico de remédios ao lado de uma transexual um tanto narcisista e um homossexual visualmente sabotado com hormônios femininos. O livro foi finalmente publicado em 1999, renomeado como “Monstros Invisíveis“.

Não, não foram quase dez anos de burocracia e acordos financeiros que atrasaram o lançamento da obra, pois Manifesto, futuramente o sucesso Monstros Invisíveis, aquela nova, peculiar e sem dúvida original ideia, foi recusado pela editora.

Eles disseram que não poderiam publicar algo tão sombrio.

Frustrado, esse escritor de nome complicado volta para casa e começa um novo trabalho. Alguns anos após a rejeição de Manifesto, ele volta a apresentar uma outra nova e peculiar ideia à editora, ideia essa muito mais sombria, suja, niilista e sem escrúpulos que a anterior.

Eram 208 páginas de tudo aquilo que os editores disseram para não ser feito, então a reação foi mais do que óbvia: em 17 de agosto de 1996, eles publicaram essas 208 páginas em capa dura, onde se lia o futuramente lendário título “Clube da Luta”.

E, até hoje, alguns ainda não sabem pronunciar “Chuck Palahniuk” corretamente – de acordo com o próprio, há vários meios de fazê-lo, mas o que se adequa como o mais certo é “Chuck Paula-Nick”. De nada.

Em minha resenha anterior, Eu, Robô – O que é humanidade?, eu comentei que Eu, Robô é um daqueles livros que as pessoas veem nas livrarias e bibliotecas e pensam: “Tinha um livro?”. Bem, Clube da Luta sofre do mesmo “problema” – em aspas, pois o filme é uma das melhores adaptações cinematográficas já feitas –, mas em proporções ainda maiores.

Mas vamos por partes. É 1996, o filme nem saiu ainda. Nas palavras do próprio Palahniuk, antes de tudo isso, havia apenas uma história curta. Um conto. Com sete páginas ao todo, escrito em um dia chato de trabalho, na companhia da sua lembrança das férias de verão: um grande olho roxo, o prêmio reverso de uma luta feia. E todos olhavam para o hematoma, e imaginavam exatamente o que tinha acontecido, mas ninguém queria falar sobre.

A primeira regra do Clube da Luta é que você não fala sobre o Clube da Luta.

Na história, acompanhamos a vida sem graça de um alguém sem graça. Um dos muitos adeptos da cultura yuppie dos anos 80 e 90, sem nem sequer um nome próprio. Ele é simplesmente “O Narrador”.

Tudo em Clube da Luta parece distante, como se o protagonista não estivesse exatamente ali, mas isso é totalmente proposital, pois serve para ilustrar o sentimento de eterno cansaço d’O Narrador, que possui insônia.

Essa insônia é justamente o que inicia o livro: desesperado por uma boa noite de sono, O Narrador vai ao médico, mas esse se recusa a lhe dar qualquer tipo de medicação para dormir. Como em um último apelo, O Narrador diz estar sofrendo com a falta de sono, mas o doutor persiste em não receitar nada, dizendo que, se ele deseja ver sofrimento de verdade, que vá a um dos grupos de apoio da Igreja.

E O Narrador vai, utilizando um nome falso e fingindo também estar doente. Se o grupo é para o apoio de vítimas do câncer testicular, ele finge estar castrado como os outros. Se o grupo é para o apoio de portadores de parasitas cerebrais, ele finge já ter feito seu seguro de vida.

E, naquela bizarra noite, ele finalmente consegue dormir. É como se, ao ser o único sem um tumor na próstata, sem parasitas no cérebro, sem demência cerebral orgânica, O Narrador se sentisse superior.

É uma referência exagerada e sarcástica à necessidade humana de sempre estar melhor que o outro. De ter filhos mais bonitos, uma casa maior, um carro mais caro. Já poderia ser um grande “tapa na cara”, mas acaba por virar uma boa surra no decorrer da história.

Este é um dos fatores mais recorrentes na obra: niilismo. E niilismo dos fortes.

Seja com os gigantescos monólogos d’O Narrador, ou com as situações absurdas ocorrendo na história, ou mesmo com personagens literalmente gritando isso, Palahniuk passa uma dura mensagem: você não é especial. Você está aqui por acaso. E você vai morrer.

O Narrador é apresentado como menos que uma pessoa. Como um nada.

Assim como todos os outros personagens – com excessão de um – são apresentados como um grande nada.

É o nada se sentindo superior a nada.

Ok, mas quem é esse personagem fora da curva? E que história, exatamente, O Narrador está contando?

Em uma viagem a trabalho, o protagonista encontra um homem carregando troncos em uma praia de nudismo, esculpindo algo. Eles falam um pouco e então se despedem. Poderia ter sido uma única e melancólica conversa sobre imperfeição e pouco tempo.

Algumas pessoas precisam ficar na casa de amigos quando os canos de água da casa estouram ou há uma invasão de cupins nas paredes. Quando O Narrador chega em seu prédio e descobre que seu apartamento explodiu devido a um vazamento de gás, ele liga para o seu novo amigo Tyler.

Os dois saem, tomam umas cervejas, e Durden diz que O Narrador pode ficar em sua casa, com uma simples condição: ele quer que O Narrador o soque. Que o soque o mais forte que conseguir.

E assim se inicia o primeiro de muitos combates do Clube da Luta.

Tá, mas o que é o tal “Clube da Luta”?

A segunda regra do Clube da Luta é que você NÃO fala sobre o Clube da Luta.

PÓS-LIVRO:

Ganhando admiração pelos leitores cult e fãs de literatura transgressional (Trainspotting, Psicopata Americano, etc.), Clube da Luta foi adaptado para o cinema em 1999, dirigido por David Fincher (também diretor de Se7en – Sete Crimes Capitais, A Rede Social e O Curioso Caso de Benjamin Button) e com Brad Pitt, Edward Norton e Helena Bonham Carter no elenco.

Apesar de um fracasso de bilheteria, o filme passou a ser chamado de “novo clássico” na primeira metade dos anos 2000, sendo indicado ao Oscar de Melhores Efeitos Sonoros e, sucessivamente, tornou-se mais famoso que o próprio livro.

O próprio Chuck Palahniuk reconheceu a enorme qualidade da adaptação, até mesmo afirmando que gosta mais do final do filme do que do livro.

Em 2016, vinte anos depois do lançamento de Clube da Luta, Palahniuk fechou uma parceria com a editora de quadrinhos Dark Horse (famosa por publicar Sin City, Hellboy e a versão americana de Ghost in the Shell) para lançar uma sequência da sua mais querida obra. Desenhado por Cameron Stewart (conhecido pelo quadrinho da Batgirl) e roteirizado pelo próprio Palahniuk, a sequência saiu em 13 de setembro do mesmo ano, recebendo críticas variadas. Todos têm uma opinião própria sobre Clube da Luta 2, mas todos concordam com uma coisa: é sem dúvida uma ideia peculiar e original.

Por Gabriel Barros.

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