PEQUENOS LIVROS, GRANDES HISTÓRIAS (PARTE 1).

Para quem quer desenvolver o hábito da leitura, para quem anda sem tempo para ler, ou mesmo atingir metas de livros lidos por mês ou anos, uma boa alternativa são livros pequenos, que possam ser lidos em um ou dois dias. Porém, o fato de serem histórias curtas, novelas ou contos, não significa que seu conteúdo seja necessariamente superficial. São muitos os exemplos de grandes nomes da literatura brasileira e universal que publicaram textos breves, porém com grandes histórias.

Pensando em ajudar você a encontrar essas pequenas pérolas, fizemos uma seleção de livros cujas resenhas (neste caso muito breves) pretendemos apresentar periodicamente, de cinco em cinco. O critério para inserção dos livros na lista, além da qualidade, é o número de páginas: escolhemos edições nas quais os textos tenham até 150 páginas.

Para a primeira edição (e pretendemos que seja assim nas demais), fizemos escolhas bem heterogêneas. Do clássico grego à literatura contemporânea, incluindo autores estrangeiros e nacionais, nosso objetivo é mostrar que é possível ter acesso a boa literatura em poucas páginas.

Então acompanhe nossas sugestões e aproveite muito mais suas leituras. Vamos lá!

  1. A METAMORFOSE, de Franz Kafka

Título: A Metamorfose

Autor: Franz Kafka

ISBN: 978.85.7164.685.8

Editora: Companhia das Letras

Ano: 1997

Páginas: 96

Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se metamorfoseado num inseto monstruoso. (p. 07)

Eis a célebre frase que dá início a esta novela que já começa pelo clímax. É assim que tomamos contato com o protagonista, Gregor, um caixeiro viajante que se vê fisicamente condicionado a uma situação aparentemente absurda: está metamorfoseado em um inseto. É o que se costuma chamar de uma situação kafkiana _ quando nos vemos controlados por uma circunstância que se impõe, da qual não pode escapar. A partir daí, a curiosidade do leitor vai sendo guiada para saber o que vai acontecer com ele, como vai sobreviver, como vai reagir, como vai conseguir lidar com seu novo corpo, com suas obrigações, com as reações das pessoas.

“Porque Gregor estava condenado a servir numa firma em que à minima omissão se levantava logo a máxima suspeita? Será que todos os funcionários eram sem exceção vagabundos? Não havia, pois, entre eles nenhum homem leal e dedicado…?” (p.16)

O protagonista é o filho mais velho de uma família que vive de maneira relativamente confortável graças ao seu trabalho, já que o pai havia falido cinco anos antes. A metamorfose de Gregor causa diferentes reações no gerente, na mãe e na irmã. Ele próprio de início não tem consciência do que exatamente aconteceu consigo. O fato é que trata-se de algo difícil para todos, ainda mais à medida que a crise financeira vai se instalando. Aos poucos, Gregor passa a ser visto pela família como um monstro, e é essa sua trajetória: de uma pessoa a um animal, de alguém da família a um completo estranho, do provedor a um estorvo inútil.

Partindo de uma situação absurda, Kafka mostra o utilitarismo presente nas relações familiares. Com um final um tanto quanto inesperado, é uma leitura ao mesmo tempo simples e profunda.

  1. A HORA DA ESTRELA, de Clarice Lispector

Título: A Hora da Estrela

Autor: Clarice Lispector

ISBN: 853250812X

Editora: Rocco

Ano: 1998

Páginas: 87

“Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam. Esse quem será que existe?” (p. 14)

O tema de A Hora da Estrela é a miséria humana. Tudo começa quando Rodrigo S. M., narrador-personagem, percebe em meio à multidão o olhar perdido de uma jovem nordestina e, por isso, sente a necessidade de contar a história que se segue. Intelectual de classe média prestes a escrever o seu primeiro livro, Rodrigo, nas primeiras páginas, promete escrever essa história e vai compartilhando com o leitor seu processo criativo, principalmente suas dificuldades, preocupando-se com a própria escrita, diante da simplicidade da história.

Macabéa é a protagonista, uma moça maltratada de todas as formas, subnutrida, sozinha no mundo, Nascida no sertão de Alagoas, foi morar no Rio de Janeiro depois da morte da tia que lhe criou, trabalha como datilógrafa e divide um quarto de pensão com outras moças. Ignorante e alienada, Macabéa sequer tem consciência da própria existência.

“Vou agora começar pelo meio dizendo que _ que ela era incompetente. Incompetente para a vida. Faltava-lhe o jeito de se ajeitar. Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si em si mesma. Se fosse criatura que se exprimisse diria: o mundo é fora de mim, eu sou fora de mim.” (p.24)

Era uma pessoa sem sonhos, sem ambições, sem qualquer perspectiva de futuro. Certa vez arranjou um namorado, Olímpico de Jesus, um metalúrgico nordestino, ambicioso e rude, e que a tratava com brutalidade por se sentir superior a ela. Depois de um tempo, Olímpico troca Macabéa por sua colega de trabalho, uma mulher carioca, de corpo sensual, filha do açougueiro, e que parece ser boa parideira. É justamente esta colega, Glória, que involuntariamente vai conduzir a protagonista para sua hora da estrela. É Gloria quem lhe sugere que procure uma cartomante. Madame Carlota lhe prevê um futuro maravilhoso, a redenção de toda a sua vida. Macabéa tem então um momento de esperança, que não vai durar muito.

Apesar de ser curto e conter uma linguagem simples, o livro traz elementos mais do que suficientes para que se reconheça por que Clarice Lispector é considerada um dos maiores nomes da literatura brasileira.

  1. A DÓCIL, de Fiódor Dostoiévski

Título: A Dócil

Autor: Fiódor Dostoiévski

ISBN: 8573262710

Editora: 34

Ano: 2003

Páginas: 87

NOTA SOBRE A EDIÇÃO: Esta novela já foi publicada no Brasil com outros títulos – Uma doce criatura; Ela era doce e humilde; Ela – provavelmente pela dificuldade de traduzir o título – Krôtkaia –  do russo para o português). Atualmente, as duas edições mais utilizadas são a da Editora Cosac Naify (cujo título é Uma Criatura Dócil) e a da Editora 34 (cujo título é apenas A Dócil, e consta em uma edição intitulada Duas Narrativas Fantásticas, da qual também faz parte a obra O sonho de um homem ridículo). Optamos por apresentar a resenha da tradução publicada pela Editora 34 porque é a que contém mais informações de apoio, apresentadas em notas explicativas e uma breve introdução feita pelo tradutor.

“Senhores, estou longe de ser um literato, e os senhores podem ver isso, mas não importa, vou contar assim como eu mesmo entendo. É aí que está todo o meu horror, eu entendo tudo!” (p.19)

Esta brilhante novela de Dostoiévski traz o monólogo de um narrador-personagem sem nome. Trata-se de um homem de 41 anos, militar retirado, hipocondríaco e dono de uma loja de penhores que se vê na circunstância de estar em casa com sua jovem esposa, morta por suicídio, deitada por cima de duas mesas. Nesse momento, ele tenta “juntar as ideias num ponto”, construindo para si uma verdade capaz de explicar o que aconteceu. Ela era uma jovem de 16 anos incompletos, desesperada, muito pobre e sofredora, que periodicamente ia à loja de penhores deixar lá algum pequeno objeto. Seu propósito era usar o dinheiro para pagar anúncios no jornal, pois estava à procura de emprego como preceptora.

O narrador conta desde quando se conheceram, como surgiu e depois como executou a ideia de se casar com ela. Aos poucos, ele vai se mostrando um homem muito solitário, frio, machista, e que por isso espera da mulher respeito, submissão e até mesmo idolatria. É um homem que tem consciência de seus atos, mas que não tem a intenção de mudá-los, ao contrário, em muitos momentos se compraz com isso. A mulher mostra-se humilhada e resignada, até que, depois um incidente na loja de penhores ela reage a uma discussão e com isso passa dois dias fora de casa, o que o leva a mudar de opinião sobre a até então dócil esposa.

Apesar de ser apresentada na introdução pelo próprio autor como uma novela de gênero fantástico, a obra carrega um grande fundo realista, pois nos leva a pensar sobre o funcionamento de relações baseadas em  opressão, orgulho e humilhação.

  1. ÉDIPO REI, de Sófocles

Título: Édipo Rei

Autor: Sófocles

ISBN:  978.85.7799.467.0

Editora: BestBolso

Ano: 2016

Páginas: 191 (edição pocket)

NOTA SOBRE A EDIÇÃO  O exemplar utilizado para elaborar esta resenha trata-se uma edição na qual consta, na sequência, a peça “Antígona””, também de Sófocles. Apesar de extrapolar o número de páginas estipulado, por tratar-se de uma edição pocket e também por termos conhecimento da existência cujo número de páginas não passa de 100, decidimos incluir a obra na lista.

“Pelo que vedes, a nenhum mortal que ainda espera o dia derradeiro considereis feliz, antes que tenha atingido e transposto, livre de qualquer desgraça, o marco final da vida.” (p.191)

A mais clássica das tragédias gregas, Édipo Rei é uma peça teatral que trata não somente de assassinato e incesto, mas de destino, e da (im)possibilidade de o ser humano fugir daquilo que está (estaria) traçado para si.

A história começa quando Édipo, um homem habilidoso por desvendar enigmas – e por causa disso tendo-se tornado rei de Tebas, vê sua cidade assolada por uma peste e portanto tem de encontrar uma solução. Para tanto, envia seu cunhado, Creonte, ao templo de Apolo. Lá a resposta que o enviado obtém é a de que, para salvar a cidade, é preciso identificar e punir o assassino de Laio, que era o rei de Tebas antes de Édipo, e também era casado com Jocasta, atual esposa de Édipo, com a qual ele vivia até então em harmonia.

Na busca por resposta, Édipo trava longos diálogos com diversos personagens, e aos poucos a verdade vai se desvendando: Laio havia sido assassinado na estrada, durante uma viagem em circunstâncias tão específicas, que Édipo tem de reconhecer que foi ele o assassino. Porém, como paira sobre ele a sina de matar o próprio pai, que ele crê ser Polibo, ele primeiramente pensa haver alguma injustiça ou mesmo um golpe. A verdade torna-se inevitável quando um ancião revela-lhe que Polibo não é seu verdadeiro pai e, mais tarde, um pastor lhe conta quem é sua verdadeira mãe. O final, como sabemos, é trágico.

Ainda que a história seja conhecida de todos, principalmente por ter sido referência para Freud na elaboração de seu conceito conhecido como “complexo de Édipo”, a obra surpreende e encanta a cada frase. Através dela tomamos contato com diversos aspectos da cultura e da filosofia gregas, muitas delas que se refletem até hoje no pensamento ocidental.

5. O PAPEL DE PAREDE AMARELO, de Charlotte Perkins Gilman

Título: O Papel de Parede Amarelo

Autor: Charlotte Perkins Gilman

ISBN:  978.85.03.01272.0

Editora: José Olympio

Ano: 2016

Páginas: 110 (edição pocket)

“Querido John! Ele me adora, e detesta quando fico doente. Outro dia, tentei ter uma conversa franca e sensata com ele, e dizer o quanto gostaria que me permitisse fazer uma visita ao primo Henry e à Julia. Mas ele disse que eu não estava em condições de ir, nem de suportar a visita quando chegasse lá; e a verdade é que nem consegui apresentar muito bem minhas razões, porque estava chorando antes mesmo de terminar. Está cada vez mais difícil pensar direito. Acho que é a debilidade dos nervos.” (p. 36)

Considerado por muito tempo como literatura de terror, o conto “O papel de parede amarelo” teve sua publicação negada por editores até sua publicação, em 1892. A história é narrada em primeira pessoa, em forma de um diário escrito por uma jovem mulher sem nome e que foi diagnosticada com “depressão nervosa passageira – uma ligeira propensão à histeria”. Essa é a razão pela qual seu marido, que também é o médico responsável pelo diagnóstico, a leva para passar um período em uma casa de campo. Chegando lá, ela é instalada em um quarto cujas paredes são revestidas com um papel de parede amarelo. As recomendações médicas são de que ela evite ao máximo também fazer qualquer esforço físico e mental, o que a leva a uma situação de confinamento e solidão extrema. Ao longo da história, o papel de parede vai se mostrando cada vez mais perturbador. Por outro lado, a relação da protagonista com o marido também vai se mostrando difícil, já que ele não dá ouvidos às suas reclamações, ignorando por completo sua situação. Ela vai se sentindo cada vez mais pressionada e angustiada, passando por transformações psicológicas assustadoras. O final, sem dar spoiler, é aterrador!

Mais do que literatura de terror, o conto é uma crítica a um tipo específico de relação abusiva da qual a mulher pode ser vítima em relações conjugais, e por isso tornou-se com o passar do tempo um clássico da literatura feminista.

Para enriquecer ainda mais a leitura, e primorosa edição do selo José Olympio (da Editora Record) traz uma apresentação, escrita pela filósofa Márcia Tiburi, intitulada “A política sexual da casa”, além de um posfácio, escrito por Eliane Hedges, que traz muitas informações sobre a biografia da autora. Ambos os textos ajudam muito na contextualização e em uma interpretação mais ampla e aprofundada da obra.

Por Liliane Prestes Rodrigues

Com essas dicas de leitura, esperamos contribuir para que você encontre novas e diferentes opções de leitura. Você conhece um bom livro que se enquadrem nessas características?

Deixe suas indicações nos comentários, quem sabe ela faça parte das próximas edições de “Pequenos livros, grandes histórias”.

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