CONFISSÕES DO CREMATÓRIO – ENCONTRANDO VIDA NA MORTE.

Eles disseram:

“Algum dia você descobrirá,

Todos aqueles que amam são cegos,
Quando seu coração está incendiado,
Você deverá entender
Que a fumaça entra nos seus olhos…”

                                                                           – Smoke Gets In Your Eyes (The Platters)       

 

As melhores experiências de leitura acontecem quando não esperamos nada de um livro e este, por sua vez, nos entrega algo incrível. No entanto, há algumas grandes exceções.

Quando este livro chegou a sessão Darkside de uma livraria local, eu sabia muito sobre ele. Sabia muito sobre a autora. Sabia muito sobre o teor do livro. Eu estava completamente ciente do niilismo mórbido que me aguardava dentro daquela edição capa-dura.

Eu esperava muito. E, talvez, essas expectativas fossem altas demais.

Talvez eu acabasse por odiar um livro bom, por simplesmente esperar algo incrível.

E, então, logo na primeira frase do primeiro capítulo, estou completamente preso ao livro até sua última página… E além.

 

“Uma garota nunca esquece o primeiro cadáver que barbeia.”

Realmente, parece uma experiência e tanto.

 

Voltei para casa pensando ter comprado uma autobiografia bem-humorada de uma ex-agente funerária, mas o que realmente encontrei foi uma lição de vida. Vida e morte.

Muitos amam autores pelas suas obras. Muitos amam os autores e as obras por motivos diferentes. E muitos, ainda, amam as obras, mas odeiam os autores (eu estou falando com você, Lars Von Trier).

Caitlin Doughty está em um grupo muito específico de todo esse amor ou ódio literário, pois ela não apenas fez a obra: Caitlin é a obra.

Cada frase motivadora, seguida por um verdadeiro tapa na cara existencial, por sua vez seguido de uma piada de humor negro. Cada frase que te faz pensar, rir, chorar. Nada disso é um personagem ou um cenário montado.

Doughty existe. O crematório existe. Todos aqueles corpos existiram.

E, para os que acham tudo absurdo demais para ser real, podem perguntar para a própria aqui.

 

O livro se inicia com Doughty narrando seu primeiro dia na Westwind Cremation & Burial , onde, ainda como uma novata, aprende aos poucos  como funciona o chamado “ramo da morte”. Este formato se repete por boa parte do livro, variando de função em função (como operar as fornalhas, embalsamar cadáveres, buscar os corpos), com alguns momentos off-topic aqui e ali, como lembranças de infância da autora e alguns ensaios sobre a morte do ponto de vista de outras culturas através do tempo. São em momentos como este último, inclusive, que Caitlin da o seu show.

O livro está lá para dizer, basicamente, três coisas:

1 – A morte vai chegar. Seja você saudável ou enfermo, sortudo ou azarado, humano, animal ou vegetal. E você não pode evitá-la;

2 – Você pode acreditar em Deus. É um direito seu e ninguém pode intervir nisso. Mas, se tudo que você faz na vida tem como objetivo alcançar os portões do Paraíso, você pode ficar bem decepcionado. Não com o Inferno ou com, talvez, algo menos literal do que um lugar onde todos os espíritos bons descansam. Você pode se decepcionar em morrer e simplesmente se deparar com… Nada. Com morrer… E fim.

A mensagem não é “não acredite em Deus”. A mensagem é “viva”.

Fazer tudo por uma recompensa pós-morte, eu sinto lhe informar, não é viver. É morrer.

Vá à igreja, reze para Jesus, siga um dogma, mas faça isso se, e apenas se, encontrar felicidade nessas coisas.

A mensagem, ao meu ver, parece apenas lhe aconselhar, como um amigo. “Tenha um plano B”;

3 – Quando alguém morre, é o fim, mas apenas o fim daquela pessoa. Perder um ente querido é triste. Pode, e muito provavelmente vai, te destruir por dentro. Mas, ei, quando o universo te dá uma rasteira e ri da sua cara, só há uma resposta correta a se dar: levantar, olhar nos olhos do problema e rir mais alto.

Parece algo que se lê em livros de autoajuda charlatões. Por que esse livro seria diferente?

Bem, cada um é cada um, mas Confissões do Crematório, diferente dos genéricos de “Como Não Ser Um Fracassado”, não vai “maquiar” o mundo para você. Ele não te dá um mundo imaginário e te ensina técnicas superficiais para viver nele. Ele te dá o mundo como ele é, horrível e quase sem esperança, abre os seus olhos para problemas que você talvez nunca tenha pensado, e então mostra que a pouca beleza que encontramos em coisas ainda menores é o suficiente.

Não o suficiente para se conformar.

É o suficiente para não desistir.

Por Gabriel Barros.

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