O MORRO DOS VENTOS UIVANTE OU POR QUE LER OS CLÁSSICOS.

_ Você gosta muito de ler, né?

_Sim!

_ Tá lendo o que agora?

_ O Morro dos Ventos Uivantes.

_ Nossa! Mas esse livro é muito antigo! Minha mãe já achava esse livro antigo!

_ É de 1847.

_ Mas pra que você fica lendo isso? Não tem nada melhor, nada mais novo pra ler não?

_ Não. É um clássico!

_ Eu hein! Não tem nada nos clássicos que não tenha em um livro mais novo. Deus me livre ler clássico!

Na sequência, meu silêncio acabou com a conversa, e senti por um tempo um misto de frustração e impotência diante de uma situação que é bastante comum: pessoas que não conhecem clássicos se negam a ler clássicos. Então eu me propus a fazer um texto que, ao mesmo tempo em que apresento o livro que foi a causa desse diálogo, também discuto as razões para se ler um clássico.

Já adianto a você então que um dos meus mantras literários é LEIA CLÁSSICOS! LEIA CLÁSSICOS! LEIA CLÁSSICOS!… Ok, mas por quê?

Repare que alguns poucos livros de cada geração se tornam clássicos porque trazem em si características que os livros “mortais” não têm. Primeiramente, são livros que, apesar de retratarem os costumes de um local em determinada época, tratam de questões mais profundas – os sentimentos, os conflitos, a complexidade da alma humana. É justamente essa pegada que os torna, então, universais e atemporais. Eles nos ajudam a compreender, ao mesmo tempo, a humanidade como um todo e o indivíduo, em outras palavras a nós mesmos.

Claro que não se trata de leitura para puro entretenimento, o que, saliento, é muito importante e muitas vezes necessário. O clássico não se detém apenas em distrair, ele vai além, provocando reflexões que levam à construção de senso crítico e de conhecimento.

Assim, O Morro dos Ventos Uivantes é uma obra que, retratando a vida no interior da Inglaterra no período vitoriano, vai muito mais afundo nas questões humanas.

O romance inicia com a chegada de Mrs. Lockwood ao norte da Inglaterra. Ele havia alugado uma propriedade com o objetivo de permanecer sozinho por lá durante algum tempo. Certo dia, ele resolve fazer um passeio a pé pela região e acaba sendo surpreendido por uma mudança climática aparentemente repentina: uma nevasca. Ele busca abrigo em uma casa chamada Morro dos Ventos Uivantes (Whutering Heights), que é onde mora seu senhorio. Chegando lá, além de não ser bem recebido, ele percebe que as pessoas que moram lá são muito hostis umas com as outras. Apesar do ambiente pesado, ele pede para passar a noite ali, e é instalado em um quarto que não é usado há muitos anos. Em dado momento, ele tem a impressão de ouvir vozes na janela, e ao abri-la sente como se uma mão gelada o tocasse, dizendo que está vagando em busca do Morro há vinte anos. Tudo aquilo lhe soa muito estranho.

No dia seguinte, Lockwood volta para sua casa e pergunta à criada, Ellen Dean, sobre o Morro e seus estranhos moradores, e também lhe conta sobre a situação inusitada que viveu. Ellen lhe diz que a voz que ouviu é de Catherine, antiga moradora daquela casa, e que morreu há vinte anos. A criada começa, então, a narrativa do livro propriamente dita, contando tudo que testemunhou durante toda a sua vida, já que sempre trabalhou naquela propriedade.

Ellen conta que Heathcliff, o atual proprietário do Morro, quando era ainda muito pequeno foi adotado por Mr. Earnshaw, antigo proprietário daquela casa e pai de Catherine, que era a filha caçula da família. O menino foi muito bem recebido pela garota, mas não por seu irmão mais velho Hindley, que desde o início maltratava muito Heathcliff. Com a morte inesperada do pai, Hindley passa a usar de sua autoridade para impor ao irmão adotivo todo tipo de violência física e assédio moral, o que faz com que o garoto alimente desde cedo um incontrolável desejo de vingança.

Esse desejo aumenta ainda mais quando, na adolescência, Catherine acaba optando por um casamento por conveniência (atenção para o preconceito de classe) com Edgar Linton, apesar de reconhecer que ama intensamente Heathcliff. Ao saber da decisão de Cathy, ele foge e passa três anos longe. Quando retorna, sua amada está casada há alguns meses e leva uma vida aparentemente tranquila e feliz. E é aí que Heathcliff, agora um homem muito rico, começa a executar sua vingança. Sem nunca “sujar as mãos”, ele vai destruindo a vida de cada uma das pessoas responsáveis por seu sofrimento, inclusive sua amada Catherine.

Porém, para quem ainda não leu O Morro (LEIA CLÁSSICOS!), destaco que nesse livro não há vítimas, pelo contrário. Todas as personagens (com exceção talvez dos dois narradores – Lockwood e Ellen) são pessoas ruins: vaidosas, egoístas, impulsivas, mesquinhas, ressentidas, arrogantes, violentas. Esse é um dos aspectos que faz a obra de Brontë se universalizar, ao expor todas as mazelas de seus personagens, está questionando (e propondo ao leitor refletir sobre) a natureza da alma humana: seria a maldade inerente às pessoas ou elas são assim devido ao meio onde vivem? Até onde vai o desejo de vingança? Quais são os limites do amor? É possível um amor transformar-se em obsessão? Apesar de cada um de nós já ter sua opinião a respeito, este livro (assim como clássicos em geral) nos oferece novos pontos de vista, o que nos permite aprofundar a opinião ou até mudar de perspectiva.

Além disso, outro aspecto marcante dos clássicos tem a ver com o trabalho que o autor faz com a linguagem. Não se trata de usar palavras difíceis e frases invertidas com a intenção de complicar a sua vida, mas de usar os recursos da linguagem de forma menos óbvia. No caso dO Morro, não é necessário ter mais atenção ou usar dicionário, ao contrário, a leitura é fluida. A linguagem e a trama dão vontade de ler todo ele de uma vez só, pois encontramos passagens belíssimas. Por exemplo, o diálogo entre Ellen e Catherine no qual a criada pergunta à sua patroa se ela ama Linton, no qual também acabam falando sobre Heathcliff.

“Não é porque ele é bonito, Nelly, mas porque ele é mais eu do que eu própria. Não importa do que são feitas nossas almas, a dele e a minha são iguais. E a de Linton é tão diferente quanto um raio de lua é diferente de um relâmpago, ou a geada do fogo.

Sem falar que os clássicos provocam um “efeito cascata” em relação a outras manifestações culturais, e por isso acabam influenciando no pensamento vigente. O Morro, especificamente, já foi adaptado para várias vezes para o cinema, cujas versões mais famosas são as de 1939

e de 1992, com Ralph Fiennes e Juliette Binoche nos papeis principais
. Também inspirou obras na TV e no teatro (óperas e musicais). A música de Kate Bush, inspirada nO Morro, foi sucesso em sua época (veja o clipe no link
.

Na literatura, o livro também exerce influência até hoje. Você já leu ou pelo menos ouviu falar na saga Crepúsculo, correto? Então deve lembrar que O Morro, não à toa, é o livro favorito de Bella Swan, e que o dilema de Bella ao ter que escolher entre Edward e Jacob, é o mesmo pelo qual passa Catherine. O que Stephenie Meyer fez foi usar o clássico como grande referência, porém sem o mesmo estilo, profundidade e fôlego que Emily Brontë.

E assim os clássicos vão deixando seu legado e ultrapassando gerações. Portanto, a partir de agora, repita comigo: EU VOU LER CLÁSSICOS! Garanto que você não vai se arrepender

 Por Liliane Prestes Rodrigues.

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