DIÁRIO DE UMA ESCRAVA – UMA IDEIA INCRÍVEL QUE QUASE DEU CERTO

Pode ser que ele tenha me roubado tudo, até a mente. Pode ser que muito do que aqui está seja invenção. Não importa, porque, no buraco, o medo, a escuridão e o sofrimento eram reais.

                Eu me considero pessimista para muitas coisas. Na verdade, considero-me realista, mas minha visão quanto a esta realidade talvez não seja considerada das melhores. Há, contudo, boas exceções neste meu pensamento, e livros estão definitivamente entre elas.

                Quando vejo um livro escrito por um autor que admiro, ou uma história inovadora, com algum tipo de conceito interessante, costumo ficar não só muito empolgado, mas totalmente predisposto a amá-lo com todas as forças muito antes de ler sequer seu primeiro parágrafo.

                Há livros que, tenho total ciência, não são nada de mais, porém eu os considero totalmente indispensáveis em minha prateleira. Para mim, não são apenas bons, são incríveis.

                Como Cidades de Papel, de John Green. O autor se mostrou capaz de tocar em vários assuntos considerados sensíveis durante a sua carreira, como morte, homossexualidade, câncer, TDAH entre outros. Em Cidades de Papel, contudo, temos uma espécie de “suspiro de alívio”, com uma história menos terrivelmente real e trágica quanto os outros… Bem, exceto que não.

                Não sou do tipo que chora com livros (na verdade, nem com filmes e séries isto é muito comum), mas é incrível como certas cenas em Cidades de Papel me fizeram chorar ao ponto de precisar dar um tempo na leitura. Mais incrível como isso aconteceu de novo ao fazer uma releitura.

                Eu estou certo de que Cidades de Papel não é isso tudo. Não tem como ser. Mas eu acho tão linda a ideia e a mensagem que simplesmente sou incapaz de não adorá-lo.

                Como gostaria – não faz ideia do quanto – que Diário de Uma Escrava fosse um desses casos.

                Eu gosto de tudo sobre o livro, mas é como se o resultado final fosse um coletivo de boas ideias mal executadas. Na verdade, receio que nem seja isto, pois a execução não é ruim de forma alguma.

                Vejo muitas críticas negativas quanto a esta obra, mas pouco vejo tentarmos considerar o porquê ela é ruim. E, quer saber, é mais difícil do que parece!

                O enredo lança uma ideia tão sensível quanto morbidamente cativante: em algum lugar do Brasil, uma menina é mantida prisioneira em cárcere privado por um homem conhecido inicialmente como “Ogro”, que a usa como escrava sexual.

                O primeiro capítulo é chute agressivo no estômago do leitor. Somos apresentados à esta garota, Laura, em seu 1.728º dia no que ela mesma chama de “buraco”. Sua narração fria do estado em que vive, com baldes para urina e fezes, água limitada e nenhuma luz solar, simplesmente pega qualquer tipo de felicidade que o leitor tenha adquirido durante o dia e a joga no lixo. Você quer ajudar a pobre garota, tirá-la dali e dá-la conforto.

                E, então, outro chute, quando o Ogro adentra a sala e Laura, parecendo há muito conformada com sua situação terrível, simplesmente deita-se na cama sem resistência alguma, esperando seu agressor estuprá-la.

                A escrita de Mierling é bastante ousada, sem medo de chocar e, de forma alguma, enaltecendo a violência sexual e física da protagonista. Eu digo isso por conta da massiva camada de histórias horríveis que fazem questão de colocar estupradores e assassinos cruéis no topo de um pedestal presente no site Wattpad, onde a história foi, originalmente, publicada.

                Diferente do exemplo mais famoso (e horrendo) dessas histórias, Clockwork: Your Time Is Up, Diário de Uma Escrava realmente nos convence do horror vivido pela protagonista, mesmo utilizando de um tom apático e explícito.

                E esse ponto só é aprimorado no capítulo seguinte, quando vemos Laura, até então estabelecida como alguém fria e conformada, quebrar emocionalmente perante as terríveis humilhações do Ogro, lembrando-nos que, passe o tempo que passar, Laura ainda é uma criança com a adolescência roubada.

                Não bastasse esses dois capítulos simplesmente incríveis e ousados, Mierling ainda abre margem para discutir a Síndrome de Estocolmo que a protagonista começa a apresentar sintomas. Esta condição, aos que não sabem, consiste na relação de proteção e, em alguns casos, até mesmo afeto que vítimas passam a sentir por seus agressores quando em situação de convivência.

                A maneira que Mierling apresenta esta Síndrome, muitas vezes incompreendida, é totalmente inteligente: Ogro, o estuprador e carcereiro de Laura, irá viajar e deixá-la trancada na cela com um estoque de comida e água. Perfeito, não?

                Bem, não.

                E se ele não voltar mais? E se a água ou a comida acabarem? E se Laura ficar doente ou se ferir?

                Deixa de ser um chute e transforma-se em um verdadeiro tiro quando o leito percebe que aquela menina, naquele situação tão pavorosa, não tem ninguém no mundo. Ninguém além do homem que a estupra e a humilha todos os dias, há anos.

                Fico estonteado de como essa introdução é magnífica. Mórbida, violenta e sensível, mas magnífica.

                Lendo as páginas, eu pensava em como a obra tinha potencial de ser um livro do tipo que muda vidas, um Laranja Mecânica ou Grande Gatsby da nova geração.

                E, infelizmente, nem mesmo o nome da protagonista tornou-se memorável em minha mente no momento em que sentei para escrever esta resenha. O que funciona tão bem como um começo parece se quebrar ao poucos até estilhaçar-se num final real, mas contextualmente insatisfatório.

                Vamos por partes: quais os pontos em que Mierling errou?

                Bem, mais uma vez infelizmente, a autora parece errar no alvo que, ao início, acertou em cheio.

                Antes de mais nada, não é um Diário. É um detalhe mínimo, mas vale ressaltá-lo. O livro divide espaço com relatos de Laura, narrados em primeira pessoa, e contos sobre outras vítimas do Ogro e acontecimentos na família da protagonista após o seu sequestro, ambos em terceira pessoa.

                Não há problema em misturar dois tipos de narração. Livros com grande qualidade, como, por exemplo, Trainspotting fizeram isso e funcionou muito bem. Nem mesmo há problema em mixar páginas de um diário com outro tipo de narração, como é feito com maestria por Cynthia Hand em O Última Adeus.

                É apenas que não me entra na cabeça o porquê da escolha do título “Diário”.

                Mas vamos aos verdadeiros problemas agora: primeiramente, a certa repetitividade dos capítulos ao longo do livro.

                Presenciamos várias cenas de violência sexual durante a história. Da primeira vez, é triste. Da segunda, é dolorosa. Da terceira, revoltante. Vamos construindo um verdadeiro ódio pelo Ogro conforme essas cenas passam, e funcionam muito bem… Por um tempo.

                Da segunda metade do livro em diante, o meu choque aos poucos ia sendo substituído por olhos revirados e o apático pensamento de “Ah, isso outra vez?”. Não acho que a autora teve a intenção de sensacionalizar e/ou romantizar esses atos, e nem acho que seja exatamente o que acontece no livro. É só que as descrições detalhadas deixam de causar grandes reações no leito depois de repetidas tantas vezes.

                Outro grande problema é, justamente, a tão bem introduzida Síndrome de Estocolmo. Sem dar muitos detalhes em tentativa de evitar spoilers, ao final do livro, a construção lenta da condição parece se acelerar nada naturalmente, levando a uma conclusão que parece exagerada e cruel.

                E não cruel realista. Apenas cruel “Ei, veja como minha história é pesada”.

                Talvez esse seja o ponto que mais me incomoda. Eu poderia ignorar qualquer outro fator falho do livro se estes me levassem a um fim digno do seu início. Mas a decepção após a última página torna todos os problemas mais frustrantes.

                Apesar de tudo, com toda certeza estarei de olho em futuros trabalhos da autora. Acho perfeitamente possível que o nome “Rô Mierling” acabe por ser grande em meio a literatura nacional em algum tempo à frente, e eu mesmo adoraria desfrutar de uma de suas histórias com melhor acabamento.

POR GABRIEL BARROZZ.

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