ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA: UMA GRANDE PROTAGONISTA E A METÁFORA DO CONTEMPORÂNEO

“Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.”

O que nos torna humanos? Qual a característica fundamental, essencial, sem a qual nos tornamos outra espécie que não essa? Será Nossa constituição bípede? Será o cérebro, bem mais complexo que os das demais espécies? Será o advento da consciência? As instituições sociais? A cultura? Serão nossos olhos?

Ensaio sobre a cegueira é provavelmente o livro mais impactante de José Saramago. Publicado em 1995, o livro conta a história de uma epidemia de cegueira que atinge um país inteiro, causando o colapso da organização social.

A narrativa inicia com um capítulo magistralmente escrito. É em meio ao caos do trânsito de uma grande cidade que um homem vê tudo ficar branco, mergulha em um “mar de leite”. Rapidamente a cegueira se dissemina; e não há caso anterior relatado pela medicina, nem identificação de formas de contágio: é uma situação que foge ao conhecimento científico acumulado.

Em função dos estranhos acontecimentos, a reação do governo é colocar todos os cegos e também pessoas com risco de contaminação em quarentena em um manicômio desativado. Os cegos começam a ser retirados de suas casas e enviados para lá. Porém, entre os cegos, encontra-se a única pessoa que está imune a essa misteriosa cegueira: é a mulher do médico, que mente estar cega para poder acompanhar o marido.

E é apenas esta mulher que presencia tudo o que se passa lá. Num lugar onde todos são cegos, as piores facetas do ser humano vêm à tona: egoísmo, ganância, humilhação, luta pelo poder, violência física e moral, a mais completa barbárie. É o desmoronamento das instituições que nos garantem certa segurança e dignidade. Naquele cenário tão aterrador, ela é o contraponto: é personificação da humildade, da compaixão, da empatia, do respeito, da consciência humana. Ela é a consciência moral, o limite ético diante desse grupo que passou a viver apenas para atender a suas necessidades básicas, seguindo seus instintos.

Um incêndio no manicômio obriga os cegos a saírem de lá. Eles descobrem, então, que toda a população está também cega, portanto a quarentena foi inútil. O que resta a todos é somente a busca pela sobrevivência, é o apego irracional à vida, ainda que tão indigna. Saramago constrói um contexto de total desesperança; em vários momentos os personagens admitem que a morte é um destino que se aproxima rapidamente.

Um aspecto interessante do livro é que nem personagens nem a cidade têm nome. Em mais de um momento do livro, diferentes personagens dizem que nomes perderam a utilidade, já que são rótulos. Sem eles, o que surge é a essência de cada um.

“Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”.

A cidade sem nome pode ser qualquer cidade contemporânea. Pessoas sem nomes podem ser qualquer pessoa, qualquer um de nós. A cegueira, então, é a metáfora da crise moral contemporânea: é a perda da sensibilidade humana; e, nesse sentido, o “mar de leite” contamina todos. Na correria cotidiana, vamos cegando aos poucos, nos tornando insensíveis, vamos perdendo a humanidade.

“Por que foi que cegamos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem.”

A mulher do médico, em certo momento da narrativa, é comparada à figura do quadro A Liberdade guiando o povo, a obra mais famosa do pintor Eugène Delacroix, no qual uma mulher guia o povo sobre corpos durante a Revolução Francesa. Saramago usa uma analogia visual para fixar nesta mulher o altruísmo como toque de esperança, de utopia, a crença de que a humanidade ainda não está perdida, de que há luz entre os cegos.

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Saiba mais sobre esse clássico da pintura assistindo o vídeo abaixo.

 

Esta leitura foi feita em um momento muito oportuno: durante a greve dos caminhoneiros (e a consequente crise de abastecimento) ocorrida no final de maio de 2018, e como pano de fundo toda a crise política e ética que assola o país nos últimos anos. Enquanto pessoas vão às vias de fato em filas de postos de gasolina, enquanto pessoas correm aos supermercados e esvaziam prateleiras, pensava eu no papel do indivíduo, no papel de cada um de nós em relação àquilo que o país e a humanidade estão se tornando. Quais as consequências históricas desse viver alienado pelo medo, coisa tão comum hoje em dia. Será que ainda somos capazes de ver?

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”

Esta foi uma leitura coletiva organizada pela Joanna, do IG @lerapiadecasal; e compartilhada com a carla (@balestrocarla); Jack (@doses-deliteratura); Jéssica (@registrosliterarios); Luciane (@lidosdalu) e Olana (@aleituradehoje). Foi iniciativa da Joanna e foi esse livro tão especial que uniu sete mulheres de seis estados diferentes e que agora formam um grupo tão legal e em relação ao qual sou tão grata. #felicidadeliteráriadefine Bjs, gurias, e até a próxima leitura!

Minha próxima leitura de Saramago será Ensaio sobre a Lucidez, livro publicado em 2004, e que se relaciona com Ensaio sobre a Cegueira. Quatro anos depois da epidemia de cegueira, na mesma cidade onde ela começou, os eleitores decidem não votar, e os resultados são catastróficos. Atualíssimo, não é mesmo? Não vejo a hora de devorar esse livro!

POR LILIANE PRESTES RODRIGUES.

Livreria – multiplicando sua leitura.

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