JANE EYRE: UM LIVRO REVOLUCIONÁRIO.

Diz-se que algo é revolucionário quando se caracteriza pela possibilidade de renovar padrões estabelecidos, quando algo se mostra ousado. Para mim, esse é o melhor adjetivo para caracterizar JANE EYRE, livro escrito por Charlotte Brontë, publicado na Inglaterra em 1847, sob o pseudônimo de Currer Bell.

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Trata-se de uma autobiografia ficcional. A narrativa começa quando Jane tem dez anos. Seus pais morreram quando ela ainda era muito pequena, o que a levou a viver com parentes que a maltratam muito, portanto sua vida é muito sofrida. Depois de ter um sério desentendimento com a tia, Jane é levada para um internato de caridade. Lá a vida também é difícil, cheia de hostilidade e privações, mas mesmo assim Jane mostra força, persistência e motivação para se desenvolver. Já nesta fase o leitor percebe nela a vontade, a ânsia por autossuficiência, por se tornar uma pessoa melhor, um ser humano livre.

Assim, Jane vive oito anos na escola de Lowood: seis como aluna e dois como professora. Com a saída de Mrs. Temple, a professora que lhe servia como modelo e inspiração, ela resolve também sair de lá, com o objetivo de conhecer mais do mundo. Ela é contratada para trabalhar em uma propriedade chamada Thornfield Hall, como preceptora da menina Adele, pupila de Edward Rochester.

A partir daí, acompanhamos a vida de Jane por um curto e intenso período. Logo após conhecer Rochester, um típico herói byroniano (para saber mais, leia https://pt.wikipedia.org/wiki/Her%C3%B3i_byroniano ), eles se apaixonam um pelo outro. Porém, um segredo do passado será um obstáculo para a tão desejada união.

O livro conta com elementos da literatura gótica: cenários medievais; personagens por vezes melodramáticos; a existência (e revelação) de segredos do passado; além de alguns toques de sobrenatural. Entretanto, seu aspecto mais marcante está no fato de ser um dos maiores romances de formação da literatura ocidental.

Para quem não sabe, romance de formação (em alemão, bildungsroman) é aquele que apresenta a trajetória de vida do protagonista (ou de um grupo de personagens), mostrando detalhadamente seu processo de desenvolvimento – psicológico, físico, ético e moral, social e político – desde a infância/ adolescência até uma etapa da vida em que atinge mais maturidade, mais completude. Em geral, o protagonista vive um sentimento de estranheza em relação ao mundo. Com o desenrolar da narrativa, ele vai agindo sobre o mundo e sendo simultaneamente influenciado pelo ambiente ao seu redor. Um dos pontos interessantes desse tipo de história é acompanhar como a consciência do indivíduo trabalha em meio às provações impostas pela sociedade.

E as provações apresentadas a Jane são muitas. Ela questiona e por vezes combate valores, status e até mesmo dogmas, mostrando-se um espírito livre (de certa forma) e à frente de seu tempo, diante de uma sociedade britânica muito bem retratada através dos demais personagens. Desde a rivalidade entre ingleses e franceses, passando pela discriminação de classe, pelas diferentes vivências do cristianismo, até chegar à posição da mulher; nada escapa à crítica de Charlotte Brontë.

O caráter inovador da obra está no fato de termos o protagonismo desse romance de formação sendo exercido por uma mulher que se coloca como tal, vendo e julgando tudo o que acontece ao seu redor, agindo a partir da perspectiva feminina (e feminista!). Apesar de ter um corpo pequeno, uma aparência física frágil, Jane mostra-se muito forte, um verdadeiro poço de autoconfiança e respeito próprio.

“Eu cuido de mim. Quanto mais solitária, quanto mais sem amigos, quanto mais desamparada estiver, mais respeitarei a mim mesma.”

Desde criança, ela se mostra rebelde, sincera, inteligente e intensa, com pensamentos e atitudes bem distantes das heroínas meigas, delicadas, passivas e submissas que até então se conhecia. É justamente por isso, mas não só, que a obra foi recebida com críticas (mas também com aplausos) na sequência de seu lançamento, pois trazia uma visão “não feminina” da mulher.

Esse é um dos pontos fortes do livro: o debate de gênero promovido pela protagonista. Jane a todo momento questiona o fato de a vida da mulher estar restrita ao âmbito doméstico, questiona a predestinação ao casamento e a assuntos tidos como superficiais. Utilizando o recurso de se dirigir diretamente ao leitor, e pela construção/ desenvolvimento de sua consciência, ela provoca empatia e nos permite compreender a condição da mulher de classe média na sociedade vitoriana, tão restrita em possibilidades, tão limitada às responsabilidades do lar. A reivindicação por igualdade de gênero permeia o livro todo.

Ainda sobre a escrita de Charlotte: existe um paralelismo entre o momento em que Jane conhece Rochester e a cena final do livro. Quando o leitor percebe essa “costura” (e por tudo que foi dito nesta resenha), torna-se impossível não escolher este como um dos livros favoritos da vida. Charlotte domina a linguagem e a estrutura da narrativa com maestria.

Para despertar sua vontade de ler Jane Eyre, fique agora com mais alguns quotes:

“É uma grande conquista: você é boa com aqueles que são bons com você. Isso é tudo que sempre desejei para mim. Se as pessoas fossem sempre boas e obedientes com aqueles que são cruéis e injustos, os maus teriam tudo a seu modo. Nunca sentiriam medo e assim nunca mudariam, mas se tornariam cada dia piores. Se nós apanhamos sem razão, devemos bater de volta com mais dureza. Estou certa disso… com tanta dureza que a pessoa que nos bateu nunca se atreva a fazer isso de novo”.

“Mesmo que o mundo inteiro a odeie e a julgue má, enquanto sua consciência estiver tranquila e isentá-la de culpa, você nunca ficará sem amigos.”

“Aos dezoito anos a maioria das moças quer agradar, e a convicção de que não possuem um aspecto exterior que possa dar suporte a esse desejo, não é agradável a ninguém.”

“Supõe-se que as mulheres devem ser bem calmas, geralmente, mas elas sentem o mesmo que os homens. Precisam de exercício para suas faculdades mentais, e campo para os seus esforços, tanto quanto seus irmãos. Sofrem com restrições muito rígidas, com estagnação absoluta, exatamente como os homens devem sofrer na mesma situação. E é uma estreiteza de mente de seus companheiros mais privilegiados dizer que elas devem ficar limitadas a fazer pudins, tricotar meias, tocar piano e bordar bolsas. É insensatez condená-las, ou rir delas, se procurarem fazer mais ou aprender mais do que o costume determinou que é necessário ao seus sexo.”

“Posso viver sozinha, se o respeito próprio e as circunstâncias me obrigarem a isso. Não preciso vender a alma para comprar a bênção da felicidade. Tenho um tesouro interior que nasceu comigo, e que pode me manter viva mesmo que as estranhas delícias me sejam negadas ou oferecidas a um preço que eu não possa pagar.”

Não sou um pássaro, e nenhuma gaiola vai me prender. Sou um ser humano livre, com vontade soberana (…).”

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Para conhecer mais sobre Charlotte e as irmãs Brontë, assistir ao documentário Brontë Country: The Story of Emily, Charlotte & Anne Brontë, uma produção do Reino Unido, na qual você vai conhecer os lugares onde as irmãs viveram e também conhecer um pouco mais sobre o contexto socio-histórico (a Grã-Bretanha vitoriaana) no qual Jane Eyre e os demais livros de Charlotte e de suas irmãs foram produzidos. Para assistir o documentário é só clicar na imagem abaixo.

Sugiro o filme As Irmãs Brönte (To walk invisible), uma produção da BBC com realização de Sally Wainwright, lançada em 2016. O longa acompanha a vida doméstica das três irmãs no período em que elas escrevem e publicam seus primeiros livros. O drama mostra a atmosfera intensa que elas viviam em família, principalmente devido aos problemas causados por seu irmão Branwell, viciado em álcool e drogas. É muito interessante ver o que as irmãs fizeram para que conseguissem ter seus livros publicados. Mas atenção!.. Se você ainda não leu os livros, deixe para ver o filme depois, já que ele traz pequenos spoilers que podem comprometer sua leitura no futuro.

Clique abaixo e assista um pedacinho do filme.

Por Liliane Prestes Rodrigues.

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