MORTE E DESUMANIZAÇÃO: ONDE ELAS SE ENCONTRAM NO LIVRO DE VALTER HUGO MÃE.

Você já parou para se perguntar sobre por que é um leitor? Qual é o seu objetivo ao ler um livro? O que você quer ter, sentir ou o até mesmo ser depois de concluir a leitura de cada livro?

Mesmo se você não tem uma resposta consciente para essas perguntas, saiba que suas escolhas como leitor dão conta de responder. Assim, posso afirmar com tranquilidade que há vários perfis de leitor. O meu? Gosto daquelas leituras que me desestabilizam, que mexem com minhas emoções, com meus pensamentos e pontos de vista.

Nessa perspectiva, cada pessoa acaba escolhendo aquele livro que mais se aproxima do seu perfil e das suas expectativas. Não é por acaso, então, que eu e minhas bests literárias do grupo #MuitoLivroParaPoucaVida escolhemos ler A Desumanização, de Valter Hugo Mãe.

O livro é narrado por Halldora, uma menina islandesa de 11 anos que vive uma tragédia quase insuportável: a morte de sua irmã gêmea Sigridur. Toda a família, claro, está muito abalada, mas cada um reage à sua maneira. O pai sofre calado e espera que as coisas se resolvam como que por milagre. A mãe se mutila, provocando a dor física na tentativa de suplantar a dor da morte, ao mesmo tempo em que rejeita a filha viva. Já o sofrimento de Halldora (cujo apelido é Halla), para além da morte por si só, está na confusão que ela sente em relação à sua individualidade e à da irmã, como se as duas fossem uma. Estando Sigridur morta, Halla sente-se incompleta ou, como dizem os vizinhos, “a menos morta”; e alimenta em seu imaginário a possibilidade de ter incorporado a alma da irmã. Ela está confusa, aflita e tensa; e isso se manifesta em seus pensamentos, em sua percepção das coisas do mundo, em sua linguagem:

“Em alguns casos de morte entre gémeos o sobrevivo vai morrendo num certo suicídio. Desiste de cada gesto. Quer morrer.”

É com essas dores e incertezas que a menina vai crescendo, tornando a tristeza o seu processo de amadurecimento. Aos poucos, ela vai aprendendo a enfrentar as hostilidades e durezas do mundo adulto, o que inclui também situações de violência sexual (um dos trechos mais difíceis de se ler!)

A história se passa na Islândia, uma pequena ilha de origem vulcânica próxima aos limites do círculo polar ártico, com uma paisagem exótica e um clima muito rigoroso. A escolha desse cenário ao mesmo tempo exótico e aterrador não poderia ter sido mais adequada. Não imagino uma história como essa sendo ambientada em uma grande metrópole, por exemplo. O relevo incomum, o clima inóspito, o isolamento geográfico dão um tom marcado pela capacidade de resistência às adversidades. “Para viver em um lugar como este, é preciso ser duro e ter uma vida interior rica”, disse o autor em entrevista. Outro elemento interessante está no fato de que a população local vê a terra, a própria Islândia, como Deus. Esse dado, especificamente, permite ao autor criar uma das metáforas mais belas e ao mesmo tempo mais tristes do livro.

Ele apresenta a menina morta como uma “criança plantada”, e a partir daí a irmã vai fazer uma série de reflexões, de correlações sobre a morte da irmã e sobre a sua condição de sobrevivente. Ela vai esperar ansiosamente que a irmã brote, que se transforme em uma árvore e, nesse sentido, dê início a um novo ciclo de vida. Não é o que acontece, todos sabemos. Na tentativa inconsciente de elaborar seus traumas, ela afirma:

“Ficar eternamente criança por vontade, nem que desse muito trabalho. Ser sempre assim, igual ao que fora a minha irmã. O único modo de continuarmos gémeas. Sabe, pai, se eu crescer e não crescer a Sigridur, vamos ficar desconhecidas. Faz de mim um bonsai. Peço-te. Corta o meu corpo, impede-o de mudar. Bate-lhe, assusta-o, obriga-o a não ser coisa nenhuma senão a imagem cristalizada da minha irmã. Vou passar a andar encolhida, dormir apertada, comer menos. Vou sonhar tudo o mesmo ou sonhar menos. Querer o mesmo a vida inteira ou querer menos. Querer o que queria ela. Se os bichos da terra não a deixam ser maior, se é verdade que a levam por inteiro, que fique ao menos eu, pelas duas, a ser igual, para não morrermos.”

O livro é de uma carga emocional bastante forte e, por isso, não é indicado para qualquer leitor, no sentido de que, para lê-lo, é necessário estar preparado para lidar com os sentimentos de solidão e tristeza, para lidar com uma melancolia profunda, para fazer reflexões também profundas sobre a morte e a vida após a morte. Não foi uma leitura fácil e prazerosa, muito pelo contrário, foi uma leitura daquelas que tiram o fôlego e o sono, que fazem sofrer e chorar.

Minha principal curiosidade em relação ao livro sempre foi o título, qual a sua motivação e como esse motivo iria se refletir na narrativa. Feita a leitura, a conclusão a que cheguei foi de que todo aquele sofrimento vivido pela menina Halla, principalmente quanto à maneira como os demais personagens a tratavam, era desumano e que, nesse sentido, esse período de luto era um processo de desumanização.

Na tentativa de conhecer mais sobre Valter Hugo Mãe e sua obra, me deparei com algumas entrevistas e através delas (e também pelo posfácio do livro), fiquei sabendo que há neste livro um dado da biografia do autor. Também ele perdeu um irmão e portanto teve uma experiência de luto. Sobre A Desumanização, especificamente, o autor fala da “necessidade de reduzir os índices de sensibilidade para conseguirmos seguir sendo gente. É como se, para continuarmos a ser humanos, precisássemos ser menos humanos”. A Desumanização é, pois, sobre precisar ser menos sensível para poder continuar suportando a vida. Brutal, chocante, amargo, profundo! Definitivamente, uma leitura que desestabiliza.

 “A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. Ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. Sem ninguém no presente e nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. Dura pelo engenho que tiver e parece como um tributo indiferenciado do planeta. Parece com uma coisa qualquer.”

Assista abaixo à entrevista que VHM concedeu para a TV portuguesa (canal RTP2), falando sobre A Desumanização.

 

Por Liliane Prestes Rodrigues.

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