O GRANDE GATSBY E A NOVA MALA DE NEYMAR

Alguns dias antes do início da Copa de 2018, encontrei um casal de amigos, e sentamos para um café acompanhado de uma conversa descontraída. O primeiro comentário surge já com críticas: como se não bastasse Neymar ter comprado uma mala que custa aproximadamente R$18.000,00, isso vira notícia no mundo inteiro e muita gente está curiosa para ver a tal mala.

Passando ao próximo tópico, meu amigo, que é professor de literatura, comentava que os livros que são considerados clássicos são assim: permitem que façamos reflexões sobre determinado(os) aspecto(s) da realidade, de nossa sociedade, do modo de vida e dos valores vigentes a partir de um novo prisma. Nessa perspectiva, encontramos livros que, mesmo se situando em um momento histórico específico, nos permitem olhar mais atentamente para a atualidade e também para as grandes questões humanas.

É o caso, por exemplo, de O Grande Gatzby, de F. Scott Fitzgerald. Publicado em 1925, o livro é considerado ainda hoje uma das mais importantes obras da literatura norte-americana. Um livro pequeno, de fácil leitura, com um enredo simples e aparentemente despretensioso, mas que guarda um grande conteúdo para o leitor mais atento e, portanto, mais crítico.

A história acontece na Nova York da década de 1920, também conhecida como era do jazz (para saber mais sobre essa época, acesse https://www.bbc.com/portuguese/vert-cul-43089701 ). É o período compreendido entre o final da I Guerra Mundial e a quebra da bolsa, em 1929. Com uma Europa em processo de reconstrução pós-guerra, os EUA conseguem gerar superávit suficiente para alavancar um período de grande desenvolvimento, alcançando a hegemonia econômica e política que detém até hoje. É também um período de euforia generalizada em que se forja a ideologia do sonho americano: os EUA são a terra das possibilidades, na qual o trabalho é recompensado com uma vida rica e segura.

Para saber mais sobre o sonho americano, acesse http://despertarcoletivo.com/o-sonho-americano/

A história é narrada por Nicky Carraway, um personagem que vai se mostrando vital para o desenvolvimento da trama. Ele não é um narrador onisciente, então é a visão de Nicky que nos informa sobre o que está acontecendo (e sobre o que aconteceu no passado) à medida que ele toma contato com situações e personagens. Nossa compreensão da história vai até onde vão os limites desse narrador. Ele vai contar a história de Jay Gatzby. Antes, porém, vai contar brevemente a própria história até para justificar seu contato com o protagonista.

Nicky é filho de uma família de classe média do meio oeste americano. Na tentativa de fazer dinheiro rapidamente, ele resolve ir morar em Nova York para trabalhar no mercado financeiro. Muda-se, então para Long Island, uma região residencial em que sua modesta casa está rodeada por enormes e suntuosas mansões. Chegando lá, ele fica sabendo de grandes festas que ocorrem no local, e as mais luxuosas delas são oferecidas por Jay Gatzby. Mas, afinal, quem é ele?

Antes de responder a essa pergunta, vamos nos deter a uma informação que está no início do livro, em um dos mais célebres trechos da literatura de língua inglesa:

“Em meus anos mais jovens e vulneráveis, meu pai deu-me alguns conselhos nos quais sempre reflito desde aquela época. ‘Sempre que sentir vontade de criticar alguém’, disse ele, ‘pense que nem todas as pessoas deste mundo tiveram as vantagens que você teve’.”.

Essa é a postura de Nicky diante da figura de Gatzby e dos acontecimentos que se sucedem. O narrador se depara com um mundo que lhe é estranho: um estilo de vida rico, fútil, extravagante. Tudo ali indica que o dinheiro é capaz de proporcionar qualquer coisa.

“Creio que na primeira noite que fui à casa de Gatzby, eu era um dos poucos convivas que realmente haviam sido convidados. As pessoas não eram convidadas – simplesmente apareciam. Embarcavam em automóveis que as transportavam de Long Island e terminavam na porta de Gatzby. Uma vez ali, eram apresentadas por alguém que o conhecia, e depois disso se comportavam de acordo com regras conduta próprias de um parque de diversões. Certas vezes, surgiam e partiam sem se encontrar com Gatzby, chegavam para a festa com uma pureza de coração que, por si só, se tornava seu bilhete de admissão.”

Sobre o passado de Gatzby existem várias teorias: teria ele enriquecido com o tráfico de bebidas (na época vigorava a lei seca)? Com a especulação financeira? Teria ele matado alguém? Muito se comenta, quase nada se sabe.

Aos poucos, Nicky vai descobrindo mais sobre a vida do milionário: ele fora um oficial da marinha que lutou durante a guerra; antes disso ele havia se apaixonado por Daisy, uma prima rica de Nicky. Tudo o que Gatzby fez no pós-guerra, incluindo o lugar onde mora e as festas que dá, tem o único objetivo de reconquistar sua amada. Ele se mostra um homem solitário, sonhador e preso ao passado, de certa forma obcecado por esse antigo amor.

Daisy, por sua vez, é uma jovem que nasceu em berço de ouro. É fútil, mimada, vazia e facilmente manipulável; alguém que, mesmo sabendo que é traída, opta por manter um casamento por pura conveniência. Nunca passou por qualquer tipo de privação. Ela casou-se com Tom Buchanan, um milionário “de berço”, uma pessoa arrogante, rude, esnobe, preconceituoso, racista, mal educado. Ambos são a voz da riqueza que entende que, por poder comprar tudo, pode fazer tudo.

Mas será que pode mesmo? O dinheiro compra mesmo tudo? Em uma obra enxuta e realista, Fitzgerald propõe uma aguda crítica ao american way of life, refletindo sobre as relações enquanto traça esse retrato tão triste da sociedade e da cultura da época. Ele contrapõe o cotidiano luxuoso das personagens (festas, riqueza e excessos) à constatação de que há coisa que o dinheiro não compra. A riqueza está por toda a parte e mesmo assim não é suficiente. A ideia de que tudo está à venda é uma ilusão.

Essa foi uma leitura feita na versão original (meu primeiro clássico lido em inglês!). Fiquei bastante satisfeita com a experiência. Como já disse, este é um livro que se mostra simples em sua camada mais superficial, mas que esconde grande complexidade na crítica que apresenta.

Quase um século depois, os excessos que hoje se pratica mudaram com as tecnologias: jogadores de futebol e artistas colecionam um séquito de seguidores que esperam ansiosamente para deixar seu like no próximo post. Assim tem sido com a nova tatoo de Justin Bieber, com o pet fofo de Taylor Swift, com a nova mala de Neymar.

Mudam os meios, os fins permanecem. A ostentação permanece, a miséria humana também.

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